domingo, 26 de setembro de 2010

CRÔNICAS DO TERCEIRÃO


Os alunos do Terceirão, 3º ano matutino, deram um show ao escreverem crônicas na oficina de leitura das aulas de Português.

Leia algumas delas:


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Crônicas em sala de aula

Numa sexta-feira, de manhã, durante a aula de Português, a professora Míria explicava sobre crônicas.

Num movimento involuntário, levanto o olhar e tudo me parece normal, porém o mascar de chiclete de duas meninas me chamou atenção. Percebo que duas colegas, num canto da sala, conversam entre si. Parecem estar preocupadas com algo: talvez com a crônica que desejavam escrever nessa aula ou com o trabalho que tinham que apresentar na aula seguinte.

Era uma morena e a outra mais clara. Depois de um diálogo, com risinhos femininos como se estivessem fofocando, elas começam a escrever sua crônica. Parecem falar sobre algo engraçado, pois não param de sorrir. Um celular cai... Junto com o celular vem o silencio. A morena com um olhar assustado abaixa-se lentamente expressando dor – demonstrando grande apego a esse objeto, que poderia estar guardando um segredo. Percebendo que a aula chegara ao fim, elas desistem da crônica.

Esse curto desfecho não me surpreende, afinal qual é o jovem que não deixa as obrigações sempre para depois ou para a última hora?

Hudson e Clodoaldo



Levantar ou fingir dormir?

Eu estava em um ônibus como de costume, sentada depois do cobrador, olhando ansiosa para chegar ao meu destino. O ônibus estava cheio e os lugares reservados para os idosos, gestantes e deficientes só abrigavam uma velhinha e vários estudantes. A lotação parou para uma mulher de aparência cansada subir. Ela estava grávida, e pelo tamanho da barriga e pelo esforço que fez para subir os dois degraus, parecia que não demoraria muito para dar a luz.

Quando a mulher finalmente entrou no ônibus, a reação dos estudantes foi tão estranha que não pude deixar de reparar: o primeiro parou de conversar, abaixou a cabeça e fingiu que lia um panfleto qualquer, o segundo encostou a cabeça na janela e fingiu que dormia. A velhinha que estava sentada e que mal se agüentava em pé, vendo que os jovens não se moviam para ceder o lugar, levantou com dificuldade e ofereceu o seu lugar para a grávida. O cobrador ficou indignado, mas nada fez: omitir-se nessas situações sempre parece mais fácil que comprar uma briga.


Tamara, Lidinalva e Suzana


Depois de ler essa crônica, de Luis Fernando Veríssimo, duvido que você ainda seja capaz de dizer, sinceramente, que não curte ler. Aposto que assim que ler essa crônica vai procurar por outras, pois são textos fáceis, divertidos, escritos numa linguagem clara e parecida com a que a gente fala todo dia. Então, boa leitura.

SIGLAS

Bota aí: «P»
– «P»?
– De «Partido».
– Ah.
– Nossa proposta qual é? De união, certo? Acho que a palavra «União» deve constar do nome.
– Certo. Partido de União…
– Mobilizadora!
– Boa! Dá a idéia de ação, de congraçamento dinâmico. Partido da União Mobilizadora. Como é que fica a sigla?
– PUM.
– Não sei não…
– É. Vamos tentar outro. Deixa ver. «P»…
– «P» é tranqüilo.
– Acho que «Social» tem que constar.
– Claro. Partido Social…
– Trabalhista?
– Fica PST. Não dá;
– É. Iam acabar nos chamando de «Ei, você».
– E mesmo «trabalhista», não sei. Alguém aqui é trabalhista?
– Isso é o de menos. Vamos ver. «P»…
– Quem sabe a gente esquece o «P»?
– É. O «P» atrapalha. Bota «A», de Aliança. Aliança Inovadora…
– AI.
– Que foi?
– Não. A sigla. Fica AI.
– Espera. Eu ainda não terminei. Aliança Inovadora… de Arregimentação Institucional.
– AIAI… Sei não.
– É. Pode ser mal interpretado.
– Vanguarda Conservadora?
– Você enlouqueceu? Fica VC.
– Aliança Republicana de Renovação do Estado.
– ARRE.
– O quê?
– Calma.
– Espera aí, pessoal. Quem sabe a gente define a posição ideológica do partido antes de pensar na sigla? Qual é, exatamente, a nossa posição?
– Bom, eu diria que estamos entre a centro-esquerda e a centro-direita.
– Então é no centro.
– Também não vamos ser radicais…
– Nós somos a favor da reforma agrária?
– Somos, desde que não toquem na terra.
– Aceitaremos qualquer coalizão partidária para impedir a propagação do comunismo no Brasil.
– Inclusive com o PCB e o PC do B?
– Claro.
– Não devemos ter medo de acordos e alianças. Afinal, um partido faz pactos políticos por uma razão mais alta.
– Exato. A de chegar ao poder e esquecer os pactos que fez.
– Partido Ecumênico Republicano Unido.
– PERU?
– Movimento Institucionalista Alerta e Unido.
– MIAU?!
– Que tal KIM?
– O que significa?
– Nada, eu só acho o nome bonito.
– MUMU. Movimento Ufanista Mobilização e União.
– MMM… Movimento Moderador Monarquista.
– Mas nós somos republicanos.
– Eu sei. Mas por uma boa sigla a gente muda.
– TCHAU.
– Hum, boa. Trabalho e Capital em Harmonia com Amor e União?
– Não, é tchau mesmo.
– Aonde é que você vai?
– Abrir uma dissidência.


Fontes:
VERÍSSIMO, Luis Fernando. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p.135-137.


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